Campanhas de Lula e Ronaldo Caiado divergem sobre incentivos a data centers e política de IA

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez
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Propostas para transformação digital aproximam as campanhas em temas como conectividade e cibersegurança, mas revelam diferenças sobre REDATA, regulação da inteligência artificial, papel das estatais e estratégia para atrair investimentos privados

As campanhas presidenciais de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ronaldo Caiado (PSD) apresentaram diferenças importantes sobre os caminhos que o Brasil deve seguir para ampliar sua infraestrutura tecnológica e desenvolver a inteligência artificial. Entre os principais pontos de divergência estão os incentivos para instalação de data centers, o modelo do REDATA, a regulação da IA e o papel que o Estado deve exercer na transformação digital do país. A comparação foi publicada pelo Convergência Digital em 12 de agosto e repercute nesta quinta-feira, 13. (ConvergenciaDigital)

Apesar das diferenças, as duas campanhas apresentam pontos de convergência. Ambas reconhecem a necessidade de ampliar a infraestrutura de data centers, melhorar a conectividade, fortalecer a segurança cibernética e tratar a tecnologia como uma política transversal de governo. As divergências aparecem principalmente na forma de executar essas prioridades. (ConvergenciaDigital)

REDATA está no centro da discussão

Uma das principais questões envolve o REDATA, regime de incentivos direcionado à instalação e expansão de data centers no Brasil.

A campanha de Lula defende a aprovação do modelo como instrumento para estimular novos investimentos em infraestrutura digital. Já a equipe de Ronaldo Caiado considera que o desenho atual não atende adequadamente às necessidades do mercado e propõe uma abordagem diferente para os incentivos tributários, especialmente sobre o investimento inicial necessário para construir esses empreendimentos. (ConvergenciaDigital)

O tema ganhou relevância porque data centers passaram a ocupar posição estratégica na corrida mundial pela inteligência artificial. Sistemas generativos dependem de grandes quantidades de servidores, chips especializados, armazenamento e energia elétrica.

Quanto maior a utilização de IA, maior tende a ser a necessidade de infraestrutura computacional.

Brasil tenta atrair data centers

O país possui características consideradas favoráveis para receber novos projetos, principalmente disponibilidade de energia renovável e um mercado digital de grandes dimensões.

Por outro lado, representantes do setor apontam a carga tributária e a complexidade regulatória como obstáculos. Em entrevista publicada em maio, o CEO da Odata, Ricardo Alário Arantes, afirmou que o Brasil possui potencial para atrair investimentos por sua disponibilidade de energia limpa, mas apontou os impostos elevados como um problema de competitividade. (ConvergenciaDigital)

Essa disputa internacional se intensificou com a expansão da inteligência artificial. Data centers deixaram de ser vistos apenas como instalações para armazenamento de informações e passaram a funcionar como infraestrutura estratégica para empresas, governos e economias nacionais.

Caiado defende mudanças nos incentivos

A equipe de Ronaldo Caiado sustenta que o modelo de incentivos precisa estar mais diretamente associado à fase inicial dos investimentos.

Construir um grande data center exige gastos elevados antes mesmo do início das operações. Equipamentos de computação, sistemas elétricos, refrigeração, terrenos, conexão à rede de energia e infraestrutura de telecomunicações representam parte significativa desse custo.

A visão apresentada pela campanha é que o ambiente tributário precisa favorecer justamente essa etapa para tornar o Brasil competitivo na disputa por projetos internacionais. (ConvergenciaDigital)

Essa discussão ganha importância porque países da América Latina também procuram atrair empreendimentos de inteligência artificial.

A Argentina, por exemplo, já foi escolhida para receber o primeiro data center latino-americano associado ao projeto Stargate, iniciativa internacional de infraestrutura para IA. (ConvergenciaDigital)

Governo Lula aposta no REDATA

Do outro lado, a campanha de Lula mantém a defesa do REDATA como parte da estratégia para desenvolver a infraestrutura tecnológica brasileira.

A proposta está inserida em uma visão mais ampla na qual o poder público teria participação relevante na indução da transformação digital, inclusive por meio de políticas públicas, estruturas estatais e mecanismos de incentivo.

A diferença entre os projetos não está, portanto, na necessidade de ampliar data centers. As duas campanhas reconhecem essa demanda. A disputa está principalmente em como estruturar os incentivos e qual deve ser o papel do Estado nesse processo. (ConvergenciaDigital)

Inteligência artificial amplia divergências

As diferenças ficam ainda mais evidentes quando o assunto passa da infraestrutura física para a regulamentação da inteligência artificial.

Segundo a comparação publicada pelo Convergência Digital, as campanhas possuem visões distintas sobre regulação de IA e plataformas digitais, governança tecnológica e participação das estruturas públicas no desenvolvimento digital. (ConvergenciaDigital)

Esse debate envolve uma questão enfrentada por governos em diferentes países: como criar regras para sistemas de inteligência artificial sem impedir inovação e investimentos.

De um lado estão preocupações relacionadas à privacidade, discriminação algorítmica, desinformação, segurança e responsabilidade pelas decisões automatizadas.

Do outro está o argumento de que regras excessivamente complexas podem elevar os custos para startups e empresas nacionais, reduzindo a capacidade do país de competir internacionalmente.

Soberania tecnológica também entra no debate

A discussão sobre inteligência artificial passou a envolver também soberania digital.

A Advocacia-Geral da União, por exemplo, vem investindo em infraestrutura própria para desenvolvimento de sistemas de IA e anunciou a aquisição de servidores equipados com GPUs. A justificativa apresentada pelo órgão é manter maior controle sobre os dados utilizados em suas aplicações. (ConvergenciaDigital)

Em junho, representantes da AGU também defenderam a necessidade de controle humano sobre sistemas de inteligência artificial e maior independência tecnológica do Brasil. (ConvergenciaDigital)

Esses exemplos mostram que o debate deixou de ser exclusivamente econômico. A localização física dos servidores, o controle dos dados e a dependência de fornecedores estrangeiros passaram a fazer parte das decisões estratégicas do poder público.

Energia será um dos principais desafios

A expansão dos data centers também coloca a política energética no centro da discussão tecnológica.

Instalações destinadas a executar grandes sistemas de inteligência artificial podem consumir enormes quantidades de eletricidade. Por isso, empresas globais começaram a investir diretamente na geração e contratação de energia.

Em março, a controladora do Google concluiu uma aquisição de US$ 4,75 bilhões da desenvolvedora de energia Intersect, movimento associado à necessidade de assegurar fornecimento para a expansão de data centers. (ConvergenciaDigital)

O Brasil possui uma vantagem potencial nesse cenário pela participação elevada de fontes renováveis em sua matriz elétrica.

Mas transformar essa característica em investimentos concretos dependerá de fatores como disponibilidade de transmissão, segurança energética, licenciamento, tributação e previsibilidade regulatória.

Conectividade aproxima as duas campanhas

Nem todos os pontos são de confronto.

As campanhas de Lula e Caiado reconhecem a necessidade de ampliar a conectividade e fortalecer a segurança cibernética. Também há convergência sobre a importância de tratar a tecnologia como tema presente em diferentes áreas do governo, e não apenas como responsabilidade de um único ministério. (ConvergenciaDigital)

Essa visão reflete a crescente digitalização dos serviços públicos.

Saúde, educação, segurança, arrecadação tributária, Justiça, infraestrutura e políticas sociais utilizam volumes cada vez maiores de dados e sistemas digitais.

Consequentemente, propostas relacionadas a telecomunicações, nuvem, IA e cibersegurança passam a produzir efeitos sobre praticamente todas as áreas da administração pública.

Tecnologia ganha espaço na eleição de 2026

O confronto entre as propostas mostra como a tecnologia ganhou peso no debate presidencial de 2026.

Data centers, inteligência artificial e soberania digital deixaram de ser assuntos restritos às empresas de tecnologia. Agora envolvem política industrial, energia, investimentos estrangeiros, empregos, proteção de dados e competitividade econômica.

No caso de Lula e Caiado, existe concordância sobre a necessidade de modernizar a infraestrutura tecnológica brasileira, mas diferenças importantes sobre os instrumentos necessários para alcançar esse objetivo.

A campanha de Lula mantém a aposta no REDATA e em maior participação estatal na transformação digital, enquanto Caiado questiona o desenho do regime e defende incentivos tributários mais direcionados aos investimentos iniciais. Na inteligência artificial, as divergências se aprofundam em torno da regulação e da governança tecnológica. (ConvergenciaDigital)

Com a expansão acelerada da IA aumentando a procura mundial por capacidade computacional, essas escolhas podem influenciar não apenas a política tecnológica do próximo governo, mas também a posição que o Brasil ocupará na disputa internacional por data centers, investimentos e desenvolvimento de inteligência artificial.

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