Inteligência artificial pode adicionar quase R$ 1 trilhão ao PIB brasileiro até 2030

Diego Velázquez
Por Diego Velázquez
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Estudo do Reglab estima impacto de R$ 986,7 bilhões entre 2027 e 2030, impulsionado principalmente pelo aumento da produtividade dos trabalhadores; indústria, serviços e comércio aparecem entre os setores com maior potencial

A adoção da inteligência artificial pode acrescentar R$ 986,7 bilhões à economia brasileira entre 2027 e 2030, segundo estudo divulgado nesta quinta-feira, 13 de agosto de 2026, pelo centro de pesquisas Reglab. O valor corresponde a aproximadamente 7,6% do Produto Interno Bruto estimado para 2026 e coloca os ganhos de produtividade no centro do potencial econômico da tecnologia no país. (Exame)

A projeção não significa que quase R$ 1 trilhão será automaticamente incorporado ao PIB. Trata-se de uma estimativa de valor econômico potencial associada à adoção da tecnologia e aos ganhos de eficiência que ela poderá produzir nos próximos anos.

Trabalhadores responderiam pela maior parte do impacto

Segundo o levantamento, aproximadamente 65% do impacto econômico projetado viria do aumento da produtividade do trabalho humano, enquanto os outros 35% estariam relacionados a ganhos de produtividade do capital, como máquinas, equipamentos e infraestrutura produtiva equipados com sistemas inteligentes. (UOL Economia)

Isso ajuda a mostrar que o impacto esperado da IA não está limitado à substituição ou automação completa de atividades.

Uma parcela importante do potencial econômico depende do uso da tecnologia como ferramenta complementar ao trabalho humano. Sistemas capazes de analisar informações, produzir conteúdos, automatizar tarefas administrativas ou auxiliar na tomada de decisões podem permitir que profissionais executem determinadas atividades em menos tempo.

O efeito varia, entretanto, de acordo com cada setor da economia.

Indústria lidera potencial de ganhos

A indústria de transformação aparece como o segmento com maior impacto absoluto estimado, podendo responder por aproximadamente R$ 264,2 bilhões em ganhos associados à inteligência artificial até 2030.

Em seguida aparecem serviços, com R$ 165,4 bilhões, e comércio, com R$ 131,2 bilhões. (UOL Economia)

Na indústria, a tecnologia pode ser aplicada desde processos administrativos e desenvolvimento de produtos até controle de qualidade, manutenção de equipamentos, previsão de demanda e otimização de linhas produtivas.

Já no setor de serviços, ferramentas generativas podem transformar tarefas que envolvem produção e análise de documentos, programação, atendimento, pesquisa e organização de informações.

Agronegócio terá dinâmica diferente

O agronegócio apresenta uma característica particular.

Enquanto a maior parte do impacto econômico nacional estimado está associada ao aumento da produtividade dos trabalhadores, no campo o peso das máquinas e dos equipamentos inteligentes tende a ser muito maior.

Segundo outro recorte do estudo divulgado nesta quinta-feira, o agro brasileiro poderia obter aproximadamente R$ 48 bilhões em ganhos associados à inteligência artificial, com cerca de 92% desse impacto relacionado ao capital e à mecanização inteligente. (Exame)

Isso inclui aplicações em máquinas agrícolas, sensores, análise de imagens, previsão climática, identificação de doenças, monitoramento de lavouras e otimização do uso de insumos.

O resultado mostra como a mesma tecnologia pode produzir efeitos econômicos diferentes conforme as características de cada atividade.

Brasil ainda está atrás dos Estados Unidos

Apesar do potencial elevado, o estudo identifica uma diferença importante no ritmo de adoção da inteligência artificial.

De acordo com o Reglab, o Brasil estaria atualmente em um nível de adoção semelhante ao observado nos Estados Unidos aproximadamente dois anos antes. (Exame)

A diferença mostra que a disponibilidade das ferramentas não significa necessariamente que empresas e trabalhadores conseguem incorporá-las imediatamente.

No caso brasileiro, existem obstáculos estruturais que podem diminuir a velocidade dessa transformação.

Crédito caro é um dos obstáculos

Entre as dificuldades apontadas estão o custo elevado do crédito, diferenças significativas entre empresas e lacunas na qualificação dos trabalhadores. (Exame)

Empresas maiores geralmente possuem mais recursos para adquirir infraestrutura, contratar especialistas e reorganizar processos internos.

Para pequenas e médias empresas, entretanto, a situação pode ser diferente. Mesmo quando ferramentas de IA estão disponíveis pela internet, uma adoção mais profunda pode exigir investimentos em software, integração de sistemas, segurança da informação, treinamento e armazenamento de dados.

O custo de financiamento, portanto, pode influenciar a velocidade com que essas organizações conseguem modernizar suas operações.

Falta de qualificação pode limitar ganhos

Outro desafio importante é preparar os trabalhadores.

A projeção de que 65% dos benefícios econômicos podem surgir da maior produtividade humana torna a capacitação particularmente relevante. Para alcançar esses resultados, profissionais precisam saber utilizar sistemas de IA de forma eficiente e compreender suas limitações.

Isso não significa necessariamente transformar todos os trabalhadores em programadores.

Em muitas profissões, a competência necessária poderá estar relacionada à capacidade de incorporar ferramentas inteligentes às tarefas já realizadas, avaliar os resultados produzidos pelos sistemas e identificar situações em que a supervisão humana continua indispensável.

A transformação, portanto, envolve tanto infraestrutura tecnológica quanto educação profissional.

Infraestrutura digital também será decisiva

O estudo também chama atenção para a necessidade de ampliar infraestrutura e acesso à tecnologia.

Em determinadas regiões e atividades econômicas, problemas de conectividade ainda podem dificultar o uso de sistemas baseados em nuvem. A questão é particularmente relevante para áreas rurais, nas quais o potencial de aplicação de inteligência artificial pode ser elevado, mas depende de conexão adequada e equipamentos capazes de coletar e transmitir dados. (UOL Economia)

Sem essa infraestrutura, parte do ganho projetado poderá permanecer concentrada em empresas e regiões com maior capacidade tecnológica.

Por isso, políticas relacionadas à conectividade, formação profissional e acesso a ferramentas digitais podem influenciar diretamente quanto do potencial econômico previsto será efetivamente realizado.

Estudo foi financiado pela OpenAI

Um aspecto importante para interpretar os resultados é que o estudo do Reglab foi financiado pela OpenAI, empresa desenvolvedora do ChatGPT. (UOL Economia)

Essa informação não invalida automaticamente suas conclusões, mas é relevante para contextualizar a origem do financiamento e avaliar as projeções com a devida transparência.

Além disso, modelos econômicos sobre tecnologias emergentes dependem de hipóteses sobre velocidade de adoção, produtividade, investimentos e comportamento das empresas. Os valores apresentados devem, portanto, ser entendidos como projeções, e não como resultados garantidos.

Estudo não calcula possíveis perdas de empregos

Outra limitação relevante é que o levantamento se concentra principalmente nos ganhos de produtividade e não estima os possíveis efeitos negativos da inteligência artificial sobre o emprego. (UOL Economia)

Esse debate permanece aberto internacionalmente.

Enquanto determinadas atividades podem ser automatizadas, outras profissões podem ser transformadas e novas funções podem surgir. O impacto líquido dependerá da velocidade das mudanças, da capacidade de adaptação das empresas e da qualificação dos trabalhadores.

Por isso, um aumento do PIB associado à IA não significa necessariamente que os benefícios econômicos serão distribuídos igualmente entre trabalhadores, empresas e regiões.

Quase R$ 1 trilhão depende da velocidade de adoção

A estimativa de R$ 986,7 bilhões entre 2027 e 2030 coloca a inteligência artificial entre as tecnologias com potencial para exercer influência relevante sobre a economia brasileira nos próximos anos.

Mas transformar esse potencial em crescimento efetivo dependerá de fatores que vão muito além da disponibilidade dos modelos de IA.

Crédito, infraestrutura digital, investimento empresarial, qualificação profissional e capacidade de incorporar a tecnologia aos processos produtivos serão determinantes para definir o impacto real.

O estudo divulgado em 13 de agosto indica que o maior ganho poderá ocorrer não simplesmente pela substituição de pessoas por máquinas, mas pela combinação entre trabalhadores, inteligência artificial e equipamentos mais produtivos. Com 65% do impacto estimado associado ao trabalho humano, a preparação das pessoas para utilizar essas ferramentas pode acabar sendo tão importante quanto o avanço dos próprios sistemas de IA. (UOL Economia)

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